CRÔNICAS

UM PAÍS SEM LIVROS

Em: 05 de Maio de 2013
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- De que serve um livro sem figuras e diálogos? - pergunta Alice, logo na abertura do livro de Lewis Caroll. Alice se encontrava no País das Maravilhas. Estivesse em outro país não tão maravilhoso, a pergunta poderia ser outra:
- Para que serve um país sem livros?
Mais de 433.000 visitantes, entre os quais eu me incluo, buscaram inutilmente a resposta a essa pergunta no estande montado pelo Brasil na Feira Internacional do Livro de Bogotá (FILBO), que é, talvez, um dos eventos editoriais mais importantes da América Latina. Lá, puderam testemunhar a participação pífia - diria até vergonhosa - do nosso país. A Feira, que na versão 2013 teve Portugal como o convidado de honra, foi aberta no dia 17 de abril e fechou as portas no dia 2 de maio.
O estande montado pelo Brasil era de uma indigência absoluta: uma enorme bandeira verde-amarela com a inscrição "Ordem e Progresso" escondia apenas uma única estante com menos de 20 autores brasileiros, quase todos editados pela mexicana Fondo de Cultura Econômica - e alguns da Editorial Trotta, de Madri. Na parte posterior, havia um painel - e eu me perguntei o que é que tem a ver o cós com as calças? -  onde éramos informados que "el mundo se encuentra en Brasil", com praia e mar ao fundo e um convite: "Ven a celebrar la vida". Isso era tudo. Eu disse: ISSO ERA TUDO.
Se Monteiro Lobato tem razão quando afirma que "um país se faz com homens, mulheres e livros", então a imagem do Brasil na Feira era a de um país que não existe ou que tem praia, mar, bandeira e poucos livros. Nenhum dos três itens se fez presente na Feira: nem homens, nem mulheres, e muito menos livros.
Levei quatro livros diferentes da Editora Universidade do Estado do Rio de Janeiro (EDUERJ), um deles, o belo livro de Lúcia Sá "Literaturas da floresta: textos amazônicos e cultura latino-americana". Ofereci um exemplar de cada para figurar na prateleira do estande e a responsável recusou gentilmente, alegando que havia um acordo da Embaixada do Brasil na Colômbia com a empresa Fondo de Cultura para apresentar apenas os livros publicados por essa editora ou por ela distribuídos. Só poderia abrir exceção com autorização do embaixador Antonino Mena-Gonçalves.
Os poucos livros apresentados no estande eram muito bons, mas nem de longe representavam uma amostra de nossa produção literária. Havia quatro títulos de autoria do Leonardo Boff: Ecologia, grito da Terra, grito dos pobres; Evangelho do Cristo Cósmico; A Voz do Arco Iris e o Despertar da Águia. Lá estava também o clássico Memórias Póstumas de Brás Cubas, alguns livros de Jorge Amado e de Clarice Lispector, vários de Rubem Fonseca e da presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado. E se acabou. Nada mais.
Alguns amigos colombianos, que no ano passado viram o Brasil ser o convidado de honra, ficaram chocados. Havia na FILBO mais de 500 expositores, por lá circularam mais de 400 escritores colombianos e estrangeiros, lá dentro aconteceram mais de 1.500 eventos, todos eles vinculados ao livro e à leitura. Por lá passaram estudantes, professores, agentes literários, tradutores, pesquisadores, representantes de editoras, de missões comerciais e bibliotecários. Era uma ocasião importante para mostrar o que é que a baiana tem. Não mostramos.
Uma Feira Internacional de Livros como a de Bogotá, além de ser um espaço de festa e de celebração, é uma oportunidade singular para se estreitar relações culturais e editorais e cimentar laços comerciais. O Brasil ficou de fora de tudo isso.
Já o Pavilhão de Portugal parecia abrigar a produção editorial de uma potência econômica e literária, de um gigante vivo, exibindo centenas de títulos. A viúva de José Saramago, a espanhola Pilar del Rio, participou de uma mesa com a escritora colombiana Laura Restrepo.
Outro evento bastante concorrido foi a intervenção do francês Le Clézio, que viveu no México e no Panamá, e por isso é bastante fluente no idioma espanhol.
Os japoneses também se fizeram presentes como se fosse o Japão e não o Brasil, que mantivesse uma fronteira geográfica com a Colômbia. O ilustrador de livros infantis Satoshi Kitamura, bastante conhecido na América Latina, mostrou seus gatos, cachorros e outros animais, além de desenhos de Fernando, um menino muito danado. Ele manteve uma conversa com o escritor Álvaro Robledo.
O destaque foi para a exposição no espaço da Feira sobre La Cueva, um bar na cidade de Barranquila, que nos anos 1940-1950 reunia artistas, poetas, escritores, pintores, jornalistas e boêmios de todo tipo, entre os quais o escritor Gabriel Garcia Márquez. Foi uma gratificação ver crianças e jovens circularem pela exposição, não como obrigação, mas como deleite, num processo de apropriação da memória literária do país em sua língua.
No espaço da Feira aconteceu ainda o 1° Encontro Internacional de Bibliotecas Escolares e o 11° Congresso Nacional de Leitura, que tratou a biblioteca escolar como o lugar que permite a iniciação das crianças no processo de leitura e estimula a viagem pelas páginas dos livros, "conhecendo novos mundos, visitando lugares imaginados e dando vida a cada uma das palavras lidas".
No dia 2 de maio, depois do encerramento da 26a. Feira Internacional do Livro de Bogotá, os organizadores escolheram o Peru como o pais convidado de honra da próxima Feira, em 2014. Quem sabe poderemos, então, responder a pergunta de Alice e mostrar para que serve um país com livros e com leitores ativos.

Fotos: A.M. Betancurt

 

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17 Comentário(s)

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fred spinoza comentou:
07/05/2013
Obrigado por ter a coragem de chamar-nos atenção do descaso pela literatura tupiniquim que tem nossa chancelaria nos países limítrofes!!! No entanto, por inicitiva altruística, aqui na Triplice Fronteira, realizaremos o I Encontro de Escritores da Região Amazônica, na qual participará Márcio Souza e seu colegas da Colombia, Roberto Pineda, Carlos Páramo, Álvaro Echeverrí e Beatriz Alzate, do Peru, Roger Runrril e Ricardo Virhuiz. Este evento se realizará no auditório do Banco de la República de Colombia em Letícia nos dias 20 e 21 de maio de 2013, aproveito para convidá-los, aceitamos suas publicações amazônica para exibi-las nosso stand BRACOPE, atenciosamente, fred spinoza. Contato de fred spinoza
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nietta comentou:
07/05/2013
uma vergonha, Bessa, indignante para nos, seus leitores, brasileiros e brasileiras! pelo menos vc pode sair do vexame para curtir aquela gostosona ao som de boa musica e com momentos de extase, como nos contou na crônica anterior! ha certos males q vem para o bem! Contato de nietta
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maria jose comentou:
07/05/2013
Pois é, nesse quesito, o Brasil está longe de ser "o maish grandje do mondo".
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Giane comentou:
06/05/2013
Pois é, isso é tudo.. mas não é só isso. A Colômbia tem demonstrado desenvolvimento e competência em várias áreas do conhecimento. Tá na hora de nós, brasileiros, voltarmos o rosto para os países localizados à nossa esquerda. Eles têm muito a nos ensinar. Valeu, Bessa.. é importante difundir esse tipo de evento!!
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06/05/2013
Caro Bessa, estamos pagando o preco de nossas escolhas. Vejamos: quando ao longo de 30 anos, investimos macicamente num candidato a presidência que se gabava de não ler, não gostar de ler, e não precisar ler para 'pensar"e governar o país,porque tinha a Faculdade ou Universidade da Vida, estávamos, nos os professores, principalmente, avalisando um projeto que desqualificava o exercio cotidiano da procura pelo saber compilado nos livros, da producão acadêmica como valores "burgueses", que a "nova classe"deveria abominar. Quanto ao exercício e ao prazer lúdicos e reflexivos que um boa história é capaz de provocar, deveriam também ficar de fora, pois numa sociedade em que todos e todas foram reduzidos a "trabalhadores"e trabalhadoras, o exercício intelectual não é e nunca será bem visto. Pensar para que? Divagar para quê? Sonhar para quê? Se o futuro e a História estão dados, já escritos, nos manuais marxistas?Quando o MEC, responsável pela educacão a nível nacional, edita um livro com "erros"de portugês - a nossa língua pátria, ou mátria, como se não houvesse nenhuma idferenca entre a linguagem coloquial e a norma culta, a lingua falada e a escrita, nivela, para baixo o entendimento e a compreensão da própria língua que falamos. Bem, precisávamos confrimar que um chefe de Estado, só porque "veio de povo", como se eu evocê viéssemos de Marte ou Vênus, tem o direito de falar as besteiras que quiser e mesmo assim, ser um excelente governante. Num contexto destes, para que livros? Aliás, eles só atrapalham porque desnudariam aquele que os formadores de opinião escolheram para ser o "redentor" do povo brasileiro, da classe trabalhadora e por aí. Quem disse que o Brasil deseja estreitar lacos com a parte culta, criativa, ousada, desafiante, com projetos que pensam alguma coisa para o futuro da América Latina? Pelo que temos visto, nossos governantes, se aliam com o que há de mais retrógrado tanto em política, quanto em artes e estética no continente. Uma ministra da cultura, que não consegue estabelecer diferencas entre uma peca teatral e um programa de TV a cabo - que exibe mais (alta definicão) do mesmo, quando cria um vale cultura, demonstra o quê? Um país com livros e leitores ativos, que leiam além dos autores de auto-ajuda, significam perigo, porque o mundo dos livros pode nos revelar muito de nós mesmos. Desde nossa impotência, passando por nossa inércia e quem sabe, nos sacudir do torpor há que estamos submetidos neste país de pensamento único e do fascista "politicamente"correto Contato de helena maria de souza
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Felipe Berocan comentou:
06/05/2013
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Vera Dodebei comentou:
06/05/2013
A vergonha dominou meu espírito! Como bibliotecária, professora de um programa de pós-graduação em memória social e, principalmente, brasileira agradeço ao Bessa seu relato-denúncia sobre a lastimável participação do brasil (com b minúsculo) na Feira Internacional do Livro de Bogotá.
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Ana Stanislaw comentou:
06/05/2013
Impressionante essa ausência brasileira! Certamente, esses acordos invisibilizam grandes nomes e títulos da nossa literatura. Um absurdo! Obrigada por essa informação, Bessa. Esperamos que na próxima feira internacional o Brasil esteja melhor apresentado/representado.
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gina couto comentou:
06/05/2013
Um pais sem livros.... com muitas Alices...Os Movimentos Sociais estamos tratando de modificar esta realidade com Editoras com a Editora Expressão Popular, É difícil entrar no mercado capitalista dos livros, mas estamos fazendo alguma coisa. È mais uma frente de luta pelo pais que a gente quer.
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Italo Moriconi comentou:
06/05/2013
Obrigado pela referência à nossa Editora da UERJ, da qual você é autor mais que destacado! Não é bom negócio deixar a divulgação de nossos livros apenas com o Itamaraty. Por outro lado, a CBL participa das organizações, mas não coloca um tostão, nem na Colômbia, nem em Frankfurt, a acontecer em outubro próximo. Contato de Italo Moriconi
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Camilla Mendes Oliveira comentou:
06/05/2013
Pois é professor! O que temos visto no Brasil não é a disseminação de cultura, através das tão viajantes páginas de livros, mas sim, a exploração da sexualidade do povo brasileiro, remetendo sempre o país aos olhos sempre debochados que os gringos têm quanto à nossa cultura. Quando na realidade, o Brasil não é só um país rico em mar, praia, sol e pessoas bonitas, mas, um país com produtores de livros e, ainda, outras expressões culturais! Como fotografia, grafite, música e por aí, afora. Espero que na próxima feira, tenhamos sim uma estante mais recheada de livros brasileiros, fazendo frente aos outros países na cultura letrada! Muito boa crônica! :)
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Heliete comentou:
06/05/2013
Já compartilhei no face, mas sinto que as pessoas se chocam cada vez menos com informações assim. Pois elas se reiteram, independentemente de quem está no poder. Como se fosse da ordem da normalidade os acontecimentos só deslancharem para os apadrinhados..será herança maldita das capitanias hereditárias?
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06/05/2013
É lastimável a fraca participação brasileira na FILBO e a rejeição à aceitação dos livros que o autor apresentou para expor no stand. O imporante agora é assegurar maior partiicpaçao do nosso país para o ano vindouro e incentivar as campanhas brasileiras pelo desenvolvimento da leitura e da escrita entre crianças. São habilidades que não nascem prontas, e dependem de estímulos ambientais, que se iniciam antes mesmo da criança nascer, quando os pais conversam, cantam e estimulam a criança no útero materno, como alguém que já pertence ao ambiente familiar e muda sua forma de ser. Depois do nascimento, é fundamental a exposição da criança a imagens, palavras, sons, música, manipulação de objetos e livros e desafios para o desenvolvimento de habilidades motoras das mãos, olhos, boca, língua, expressão das emoções e por aí adiante. Leitura e escrita são funções superiores do cérebro que dependem de estímulos adequados repetidamente, por longo tempo. Por isso, não se faz um leitor ou escritor de um dia para o outro, mas num processo de história de vida, que envolve pais, professores, livreiros, etc. O mesmo acontece com a formação intelectual de um país, e não expressar a riqueza da nossa literatura, apesar das dificuldades e falta de apoio, é algo que trai a expressão da criatividade e perseverança de nosso povo. Elvira França Contato de Elvira Eliza França
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Elizabeth Lorenzotti (via FB) comentou:
05/05/2013
Ontem Folha, Globo e creio que idem Estadão deram pagina inteira de entrevista como novo diretor da Biblioteca Nacional. Muito boa. Ele nao concorda que apenas o governo arque com os investimentos, e a CBL nada, como ocorrerá em Frankfurt. Dinheiro publico para levar 90 escritores- e não só literarios- Vamos ver o que dá no próximo ano.
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Leda Beck (via FB) comentou:
05/05/2013
Num dos eventos editoriais mais importantes da América Latina, a Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo), o Brasil teve uma participação pífia. Depois, José Bessa descobriu porquê: houve um acordo da Embaixada do Brasil na Colômbia com a empresa Fondo de Cultura para apresentar apenas os livros publicados por essa editora ou por ela distribuídos. É mole?!? Em contraposição, nas palavras de Bessa, o estande de Portugal "parecia abrigar a produção editorial de uma potência econômica e literária". E até os japoneses estavam presentes como se fossem eles, e não nós, que tivessem fronteira com a Colômbia. De cortar os pulsos.
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Ângelo Maykel comentou:
05/05/2013
No Acre meu velho nem se fala, pois se ler e estudar abre a mente, então aqui nunca vão querer um povo inteligente.
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Javier Villanueva comentou:
05/05/2013
O stand da Câmara Brasileira do Livro (CBL( na Feira de Buenos Aires também não era grande coisa, e nenhum brasileiro para atender o público.
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